Artigos traduzidos: Feio, mal feito e racista: a improvável epopéia do pior jogo do mundo: Hong Kong 97

Artigos traduzidos: Feio, mal feito e racista: a improvável epopéia do pior jogo do mundo: Hong Kong 97

Saudações aos internautas.

Para comemorar a volta do blog após esse hiato de pouco mais de 1 ano, lhes trago mais uma tradução direto caderno Pixel, do jornal francês Le Monde. O artigo fala sobre – esse sim – o talvez pior jogo do mundo: Hong Kong 97. Perto dessa abominação, jogos como E.T e Superman 64 são obras-primas. Espero que aproveitem!

Feio, mal feito e racista: a improvável epopéia do pior jogo do mundo

Jogo ruim e de mal gosto, “Hong Kong 97” porém pouco a pouco se tornou cult. Vinte três anos depois, seu criador revelou a gênese a um jornal de HongKong.

Os japoneses chamam isso de kusoge, um “jogo de merda”. Nós podemos também chamar de “nanar”, ou seja, tão ruim que é engraçado. Hong Kong 97 se encaixa nessa categoria. Lançado em 1995 para Super Nintendo e desenvolvido pelo misterioso estúdio japonês Happysoft Ltd., o jogo estrelou vídeos de Youtube e foi motivo de muitas mensagens em foruns do mundo inteiro, que se divertem com a assustadora ruindade desse jogo o qual o jogar aprende que precisa “erradicar 1,2 bilhão” de chineses.

É isso o que intriga: como um jogo tão feio, tão racista, tão ruim pode ver a luz do dia? A resposta finalmente veio vinte anos depois nas colunas do jornal diário de hongkong South China Morning Post, que conseguiu apresentar pela primeira vez uma entrevista com o criador do jogo, Yoshihisa Kurosawa.

Uma foto insuportável

É preciso primeiro, para compreender a aura de mistério e enxofre que envolve Hong Kong 97, contar como que funciona uma partida do jogo.

Hong Hong 97 é um jogo de tiro com mira móvel, um descedente longínquo de Space Invaders, no qual os extraterrestres são substituídos por militares e cívis chineses. O jogo é absurdamente difícil, mal traduzido, e sua trilha sonora (os cinco primeiros segundos tocam em looping uma cantiga maoista) é insuportável.

Mas o mais constrangedor é seu roteiro. Programado dois anos antes da devolução de Hong Kong à China, é descrito um futuro apocalíptico sobre o qual “uma horda de vermelhos assustadores” invadem a cidade. “A taxa de criminalidade dispara, Hong Kong é arruinada!” No universo do jogo, o governo decide chamar Chin, apresentado como um “parente de Bruce Lee”, que se parece muito com Jackie Chan. “Chin é uma máquina de matar: aniquile 1,2 bilhão desses comunistas!”

O jogo não tem realmente um objetivo. Não é possível vencer, mesmo chegando ao inimigo principal, uma cabeça gigante e sanguinolenta do antigo líder chinês Deng Xiaoping, transformado na “arma definitiva”. Por outro lado, o jogador perde com o menor erro. E a punição é terrível: sobre a tela de “game over”, uma foto insuportável de um verdadeiro cadáver.

Uma popularidade mundial

Alguns podem ver em Hong Kong 97 o “pior jogo do mundo”, ou em todo caso o pior do bem amado Super Nintendo. Uma agressão visual e auditiva, fruto do trabalho nas coxas de um estúdio privado de talento, e pior ainda, de bom gosto.

O jogo é regularmente redescoberto pelos internautas. Primeiro no Japão. Em 2004, o site japonês Mukunob por exemplo, uma série de capturas de tela, evocando um “mal estar”. “Não é exagero dizer que esse é o lado sombrio da Indústria dos jogos”, lamenta o autor do artigo, que apresenta também suas desculpas ao povo chinês.

Mas Hong Kong 97 também foi exportado para Taiwan, onde suas legendas mal feitas em madarim divertem. A tal ponto que uma paródia ainda mais obscura, Taiwan 2001, foi lançada.

Um pequeno culto também nasceu na Tailandia, e bem mais tarde, vídeos britânicos, brasileiros e principalmente o episódio da estrela americana Angry Video Game Nerd asseguraram ao jogo sua popularidade mundial.

Rumores os mais loucos nasceram: que a música poderia provocar um transe, ou causar lavagem cerebral. Que o jogo seria uma denúncia do massacre da praça Tian’anmen. Que o cadáver seria do boxeador polonês Leszek Blazynski (que se suicidou em 6 de agosto de 1992, data que aparece na foto). Que o jogo anunciava com dois anos de antecipação a morte de Deng Xiaoping, apresentado como um morto vivo. Sem contar com a menção sem sentido nos créditos finais de uma dita participação da embaixada canadense.

A maior suspeita: Hong Kong 97 é um jogo não-oficial, que foi unicamente distribuido por baixo dos panos. Ainda assim, por pior que seja, não há nenhuma mensagem escondida, segundo seu autor. “Eu inventei tudo sem pensar”, assregurou Yoshihisa Kurosawa ao South China Morning Post.

“A indústria me revoltava”

Fim do suspense: “meu objetivo era fazer o pior jogo possível”, reconhece Yoshihisa Kurosawa.Hoje com 46 anos, ele edita o Six Samana, uma coleção de livros eletrônicos documentando suas viagens no estilo dos autores “gonzo” como Hunter S. Thompson.Ele vive entre Phnom Penh e Tokyo, se define como um senhor apaixonado por informática, video games e mais ainda por pirataria.

Foi justamente essa paixão que originou Hong Kong 97. No começo dos anos 1990, ele vivia em Hong Kong, que ainda seria uma colônia britânica por alguns meses. Sem dinheiro, ele vivia vagando em super mercados. Foi em deles que descobriu o Majikon, acessório para o Super Nintendo capaz de ler jogos amadores armazenados em disquetes. Tudo sem a menor autorização da Nintendo, que terminaria proibindo a máquina.

“A forma como a indústria dos video game funcionava me revoltava”, explica hoje Yoshihisa Kurosawa para o South China Morning Post. Ele, na época, desejava desenvolver jogos, mas ficou com horror da Nintendo, que bloqueava a produção de jogos para seu console. Uma produção que ele considera uniforme e de mal gosto.

“Era impossível lançar seu próprio jogo como independente, nós eram forçados a seguir regras e padrões éticos.”

A descoberta do Majikonlhe permitiu se libertar: ele colocou no jogo tudo o que seria impensável em um jogo Nintendo. Um jogo extremo, “como os jogos que vinham da Europa. Um jogo quebrado e vulgar, que tirava sarro da indústria”.

“Em alguns aspectos, a sociedade hongkonguesa era mais avançada que a japonesa. Por outro lado, a China parecia um mundo de selvagens. Eu me dizia: o que aconteceria se as duas sociedades se encontrassem?”

“No dia seguinte, tinha acabado”

Mas se o objetivo de Yoshihisa Kurosawa era fazer um jogo para provocar, ele não tinha tanta intenção de fazer um jogo ruim. Mesmo que ele reconheça que a idéia de fazer um jogo ruim seja divertida também.

“O jogo final não representa mais que um décimo do que eu tinha intenção de fazer. Mas eu não tinha tempo, nem dinheiro, nem permissão.” Então, no espaço de dois dias, Yoshihisa Kurosawa pegou fotos de Jackie Chan, de Deng Xiaoping, e visivelmente do cadáver – ponto sobre o qual ele se recusa a comentar. Ele pesquisou em uma pequena loja de discos de Shanghai Street um canto nacionalista em LaserDisc, de onde ele extraiu alguns segundos. E ele deu tudo para um amigo desenvolvedor que trabalhava no prestigiado estúdio Enix (Dragon Quest). A HappySoft Ltd., eram os dois – e um estudante estrangeiro de passagem que legendou o jogo em inglês e chinês.

No site da Six Samana, ele reconheceu estar bêbado durante o essencial do processo de produção. “A gente tomou umas doses, e no dia seguinte, Hong Kong 97 estava mais ou menos terminado”, ele explicou ao South China Morning Post.

Graças aos testes nas revistas alternativas que ele mesmo escreveu sob pseudônimo, alguns disquetes de Hong Kong 97 encontraram compradores em vendas por correspondência. A vida comercial do jogo foi curta: alguns meses apenas para vendas antes que Kurosawa passasse para outra coisa.

Mas a história não para aí. Como muitos jogos amadores, Hong Kong 97encontrou uma segunda vida no mercado paralelo, cheio de cartuchos piratas, revendidos em barracas escuras de toda Asia do sudoeste. Publicações especializadas sobre esses jogos independentes descobriram o mito, graças a explosão da internet e seu progressivo acesso aos jogos cult: assim, é possível baixar o jogo em apenas alguns cliques e jogá-lo em qualquer emulador Super Nintendo.

“Eu pensava que seria só uma moda, mas o interesse por Hong Kong 97 parece aumentar ano após ano”, parece lamentar hoje Yoshihisa Kurosawa. Ele explica que recebe mensagens todos os dias sobre esse assunto no Facebook, mas não se sente confortável com a herança disso que por ele não passa de uma farsa vulgar. “As pessoas não param de fazer perguntas sobre esse jogo, então eu ignoro todas. Honestamente, eu gostaria que as pessoas esquecessem de uma vez por todas.”

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AvcF.

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