Loading Time entrevista Leandro Narloch

Saudações aos interessados.

Na segunda entrevista realizado por esse blog, dessa vez me desviei um tanto dos videogames para tratar de um tema que (ao menos para mim) também é deveras interessante: história do Brasil. Isso porque Narloch publicou recente o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, um livro que demole e desmoraliza muito da história ensinada pelas “tias” da escola e que está na cabeça do povão como algo inquestionável. O próprio autor vê sua obra como uma provocação, porém trata-se de uma provocação muito bem fundamentada e documentada, sem achismos e batendo de frente com a historiografia fabricada pela visão oficial. Como está dito no livro, “uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom números de cidadãos.” Se vocês forem um daqueles que defendem os supostos heróis brasileiros em suas versões perfeitas e triunfantes e têm nacionalismo no coração, certamente estarão entre esses cidadãos.

Pois bem, após o link vocês conferem um bate papo falando sobre alguns assuntos abordados no livro bem como algumas pinceladas sobre os games, que afinal é o assunto central desse blog. Foi uma conversa divertida e bacana, uma sensação parecida com a que tive ao ler o livro. Confiram.

Já de pronto eu agradeço por ter cedido parte de seu tempo para responder as perguntas. Então vamos começar (eu em preto, Narloch em azul):

A partir de quando você se interessou em pesquisar e estudar história? A do Brasil em especial, o que te atraiu mais?
Lá por 2004, fazendo reportagens sobre história do Brasil, eu conheci várias pesquisas e livros novos. Percebi que a história que a gente aprende no colégio é chata e obsoleta.Um dia, fuçando o site da Amazon, topei com a série americana de guias politicamente incorretos. A ideia veio na hora.

O Brasil não parece ser um país chegado a revisionismos históricos, visto que a história ensinada hoje ainda é praticamente a mesma ensinada a gerações recentes. As crianças de hoje ainda aprendem que os portugueses foram invasores que destruíram os índios, que os europeus inventaram a escravidão negra (e os negros por sua vez foram vítimas indefesas e inaptas para reagirem), que a guerra do Paraguai foi um plano arquitetado pelo império britânico para destruir o governo virtuoso de Solano Lopez. Questionar Santos Dumont é quase como ser um traidor da pátria, por exemplo. Então pergunto: por que lançar o livro?
Justamente por isso! Nada tão bom, pra esquentar o debate, quanto um livro mostrando que algumas versões estão obsoletas.

Houve algum outro motivo em particular que o fez escrever o Guia Politicamente Incorreto?
O que mais me moveu foi pensar o seguinte: eu gostaria muito de ler um livro chamado Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Como ele ainda não existia, decidi escrever.

Em certa parte do livro, você fala da origem européia e até elitista da feijoada, origem muito diferente da história típica dos escravos que aproveitavam as partes menos nobres do porco que os senhores de engenho desprezavam na casa grande. Essa construção está tão entranhada na imaginação das pessoas, que ao falar isso para um conhecido, ele me respondeu em tom de indignação “mas isso (a versão dos escravos) tem muito mais lógica!” Você sabe onde começou essa construção acerca da feijoada, hoje um dos símbolos da culinária brasileira?
Hum, não sei. Acredito que tenha sido logo depois da década de 30, quando os intelectuais procuraram (ou inventaram) raízes populares para todas as tradições brasileiras. Ainda hoje pensamos assim. A gente se inclina a pensar que uma tradição antiga tem uma raiz distante, o que nem sempre é verdade.

Durante o livro, você fala algumas vezes das distorções esquerdistas realizadas por professores e historiadores de orientação marxista. Especialmente nas décadas de 60 e 70, essa influência foi muito forte, tanto que ainda é possível encontrar esses ranços nos livros e apostilas didáticas. Você acredita que esse tipo de distorção ainda esteja em curso, especialmente sobre fatos históricos mais contemporâneos?
Um pouco menos.

Ainda em relação a esse tema, você dedicou um capítulo para mostrar como o herói comunista Luis Carlos Prestes foi um líder incompetente, intransigente e teimoso, e o próprio culpado de muitos de seus fracassos (e por conseqüência dos demais comunistas). Ainda sim, muitos escritores e cronistas lhe dedicaram páginas românticas ao longo dos anos. Após sua morte, criticar Prestes tornou-se coisa de “direitista reacionário”. Na sua visão, quais os motivos que levam a tornar heróica, uma figura que do ponto de vista prático apenas fracassou em seus propósitos?
Parte foi pura propaganda comunista: escritores como Jorge Amado eram pagos pelo Partido Comunista para falar bem dos líderes ou dos países comunistas. A outra parte é fruto de uma nostalgia com o comunismo. Jornalistas, políticos tinha uma saudade romântica das lutas comunistas, por isso glorificaram seus líderes. Isso é uma tremenda bobagem.

Complementando a pergunta anterior, é a mesma construção que se faz de Che Guevara?
Sim, e com Che Guevara houve um agravante: o cara era bonito. Foi mais fácil associar a ele o romantismo da luta armada, o heroísmo. Mas o cara era um assassino, mantinha um campo de concentração em Cuba. É só olhar para Cuba hoje para ver o resultado daquele heroísmo.

Sobre Santos Dumont, no livro você afirma categoricamente que não foi o aviador brasileiro o inventor do avião, e sim os irmãos americanos Orville e Wilbur Wright. Mesmo com todas as provas e fatos contando contra Dumont, seu suposto feito sequer é questionado no Brasil. Por que você acha que isso ocorre?
Quando Santos Dumont resolveu deixar a França, na década de 1920, foi para o único lugar do mundo onde ainda se acreditava que ele tinha inventado o avião: o Brasil. O país naquela época era pequeno, rural e carente de heróis. Quando apareceu uma chance de considerar o Brasil melhor do mundo em alguma coisa, os caipiras brasileiros não desperdiçaram.

Entre os diversos acontecimentos históricos do Brasil, um dos mais emblemáticos foi o grito de independência de Dom Pedro I. Há um razoável consenso de que também esse é um fato histórico recheado de mitificações.e distorções. Você não se interessou em sobre esse acontecimento? Por quê?
Ah, porque esse já era meio repetido. O Guia não foi escrito para destruir qualquer mito, mas só os politicamente corretos. Selecionei histórias que irritassem a nossa professorinha da escola, e não aquelas que ela conta para a turma.

Por que você acha que mesmo quando apresentadas a verdade histórica, ou quando provas contudentes corroem a versão oficial ou tradicional sobre uma personagem ou fato histórico, por que você acha que as pessoas costumam ter reações irritadiças ou indignadas?
Tava pensando nisso esses dias e acho que descobri por quê. A gente costuma basear nossas opiniões e nossos argumentos em fatos históricos. Se alguém mexe com esses fatos, desmonta todo um modo de pensar e até de viver.

Você tem interesse em lançar outra obra desse tipo? O que achou da recepção de Guia Politicamente Incorreto?
Achei sensacional. Várias pessoas me escrevem dizendo que gostaram do livro, outras que odiaram. Não sei quando gosto mais. Adoro irritar as pessoas.

Bom, deixe-me puxar o asunto para o lado dos videogames.

Você tem algum console, atual ou antigo? Que tipo de game você curte mais?
Sou meio analfabeto em games. Minha noiva tem um Wii. Eu sou viciado no jogo de tanques do Wii Play. Ok, é um jogo para a terceira idade, sem estratégia e facinho, mas vicia mais que crack. Uns meses atrás o vício era no PC – eu jogava Sid Meyers Pirates, ótimo jogo.

Em um dos capítulos do livro, você faz uma brincadeira relacionando o personagem Blanka como a imagem do brasileiro. Street Fighter 2 foi originalmente lançado em 1991, certamente uma época menos politicamente correta que hoje. Você acha que se Street Fighter fosse lançado hoje, haveria uma grita parecida como aquelas contra o episódio dos Simpsons no Brasil ou o filme Turistas?
Acho que sim, mas eu não reclamaria. Adoro o Blanka. Ele é uma resposta irônica para quem pensa que ser brasileiro é ser exótico e colorido. Eu tenho uma camista com o Blanka e a frase do Hino Nacional: “Verás que um filho teu não foge à luta”

Depois do Blanka quase todos os personagens brasileiros de videogame ou eram capoeiristas ou nada tinham de brasileiro (no máximo um nome genérico como “Carlos”, ou algo meio espanhol como “Lopez”). Há quem veja isso como um problema, mas você acha realmente necessária esse rigor com personagens fictícios?
Não vejo problema não – deixa as pessoas pensarem o que quiserem do Brasil.

Qual foi a melhor seleção brasileira dos videogames? O escrete canarinho formado pelo craque Ramon Salazar em Fifa 94 ou a esquadra comandada pelos craques Allejo, Beranco e Gomez de International Superstar Soccer?
Hum, não to tão dentro do assunto pra responder…

Recentemente o deputado Valdir Raupp concebveu um projeto de lei que visa “tornar crime fabricar, importar ou distribuir jogos de videogames ofensivos “aos costumes e às tradições dos povos, aos seus cultos, credos, religiões e símbolos”, o que dessa maneira vaga e autoritária quer na prática censurar os videogames. Na sua visão por que em pleno 2009 ainda existe esse tipo de reação contra os videogames?
Se algum videogame tem ofensas contra povos e religiões, mas ofensas mesmo, talvez ele até tenha razão. Mas parece que essa é mais uma lei baseada na ideia de que videogame e televisão fazem mal. Isso é um equívoco. Se um pai quer ter um filho inteligente, a melhor coisa que pode fazer é deixar o guri ficar o dia todo na frente da TV.

Por fim, gostaria de deixar alguma mensagem aos jogadores de videogame?
Depois de terminar essa fase vá comprar o meu livro! Hehe

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Espero que tenham gostado, amiguinhos. Aproveito para avisar que pretendo fazer mais entrevistas no ano de 2010, justamente por isso que separei uma seção para elas aqui no blog. Por enquanto só tem duas, mas logo terão mais. Até breve.

André V.C Franco/AvcF – Loading Time.

13 thoughts on “Loading Time entrevista Leandro Narloch

  1. Muitoooooo bom! O Livro já entrou pra minha lista.

    Detalhe para o “Selecionei histórias que irritassem a nossa professorinha da escola..”
    Genial.

  2. Adorei a ideia tmbm, vou procurar nas livrarias, tenho de ter um desses. Eu tmbm adoro desmitificar coisas huahua. Pra se ter uma ideia, essa do Santos Dumont eu pesquisei tem uns dois meses, e falo com todo mundo esse caso huahua. Eu desconfiava, principalmente quando via desenhos com os irmão americanos inventando o avião, dai surgiu a curiosidade de ver quem estava falando a verdade

  3. A versão “politicamente correta” da guerra do Paraguai ainda faz estragos Brasil afora… Mas não houve um “inventor” do avião, cada um contribuiu com alguma coisa, e a parte do Dumont foi no modelo aerodinâmico dos aviões atuais. Mas para que nos gabarmos de Dumont se podemos nos gabar de Bartolomeu de Gusmão, que foi o pioneiro do balonismo? 😛

    1. Thales, houve sim um inventor do avião, ou melhor dois: os irmãos Wright. Falando em termos de aviação, o 14-Bis foi mesmo uma porcaria. O modelo realmente importante de Dumont foi o Demoiselle.

  4. Essa discussão sobre Santos Dumont é antiga, gostaria muito de saber a verdade, os americanos sempre têm a tendência de querer ficar com a fama de tudo que é descoberta ou invenção, portanto não dou muito crédito para a versão dos irmão Wright.

  5. Negativo, AVCF, não houve um inventor definitivo do avião. Tanto é que essa querela existe não só entre Brasil e EUA, mas Inglaterra, Polônia, França, Áustria … Muito antes mesmo até dos irmãos Wright. Mas cada um contribuiu com alguma coisa. Se o 14 Bis era uma porcaria ou não não vem ao caso, mas que voou voou.

    Além do Bartolomeu de Gusmão e do Dumont, outro brasileiro pioneiro foi o Pe. Landell de Moura, que chegou a patentear um mecanismo de rádio antes do Marconi (que roubou a idéia do Nicola Tesla, o maior injustiçado da história da ciência, mas isso é outra história).

    1. Thales, no livro essa história é muito bem contada, mas não é bem como você diz não. Sobre o 14-Bis, ele não bem voou, e sim deu um salto em linha reta de 220 metros de distância e seis de altura. Narloch narra no capítulo sobre esse tema:

      “O herói brasileiro só voaria mais uma vez com o 14-Bis em abril de 1907. Depois de um voo de 30 metros de distância, a máquina se desequilibrou bruscamente e bateu no chão. A asa esquerda despedaçou-se. É instigante imaginar Santos Dumont exatamente nesse momento. Após meses tentando tirar o aparelho do chão e mantê-lo equilibrado no ar, ele se vê dentro de uma geringonça defeituosa e quebrada. Em silêncio e secretamente, deve ter percebido a verdade dolorosa: o 14-Bis não voava. No máximo dava uns pulinhos.

      E Sadat: deixe esse anti americanismo de lado. Foram os Wright, ponto. Dumont não deixa de ser um pioneiro e um personagem importante dessa história, mas o primeiro não foi.

  6. Durante o livro, você fala algumas vezes das distorções esquerdistas realizadas por professores e historiadores de orientação marxista. Especialmente nas décadas de 60 e 70, essa influência foi muito forte, tanto que ainda é possível encontrar esses ranços nos livros e apostilas didáticas. Você acredita que esse tipo de distorção ainda esteja em curso, especialmente sobre fatos históricos mais contemporâneos?
    Um pouco menos.

    Hahahaha que cara xarope… AVCF, fala a verdade. Você realmente não ficou p#$* com essas respostas monossílábicas?! hhhhehehhehehe

    1. Não, Flávio. Ele tá até a tampa com um especial para a Super Interessante e ainda parou parte do tempo dele para responder minha lista de perguntas. Conversei com ele e foi bem solícito o tempo inteiro.

  7. “Salto em linha reta” de 220m!? Então vc quer dizer que foi que nem o Hulk no (horrível) primeiro filme dele? Dei uma pesquisada ontem em vários sites da internet (gringos inclusive) e nenhum diz que ele “pulou”, mas que ele voou (considerando que o livro é uma “história politicamente incorreta” e ele tem que vender, então até relevo isso…). E os acidentes eram corriqueiros para a época (com os Wright inclusive), afinal, estavam no começo de tudo. Os modelos tanto eram precários que no centenário dos Wright o Flyer não voou, assim como no centenário do Dumont o 14Bis tampouco voou em Paris (no Brasil sim…).

    O que acontece nessa história toda é que existe uma divergência de interpretação sobre o que é o voo. Os partidários do Wright (sim, são a maioria no mundo – mas maioria não é sinônimo de razão…) consideram que um vôo é quando você consegue manobrar a espaçonave em pleno ar (o que os Flyer conseguiram, mas o 14 Bis não). Já para os partidários do Dumont (minoria hoje, mas era o standart da época) que ocorria um voo de algo mais pesado que o ar quando ele levantava por sua própria conta e voava (o que o 14 Bis fazia, mas os Kitty Cat não fazia e o Flyer – ao menos até a exibição na Europa, em 1908 – também não; e era também outra razão para além dos riscos de espionagem industrial para os Wright não participarem dos torneios). Por isso que não dá para dizer quem foi “o” primeiro.

    1. Thales, claro que o 14-Bis voou, quando falei em salto quis dizer que era o que parecia com em relação ao Flyer. Os Wright foram os primeiros, porque como mostra o livro, o voo de 1903 foi testemunhado e inclusive foi noticia no jornal Dayton Daily News:

      “GAROTOS DE DAYTON IMITAM O GRANDE SANTOS DUMONT
      Orville e Wilbur Wright construíram um avião que fez três testes com sucesso”

      Isso tá na livro e tem fonte. Perceba a importância de Dumont, pois ele foi referência até na noticia de um jornal de uma cidadezinha americana. Mas nessa época para Dumont o futuro da voo era pelos balões (foram eles que fizeram sua fama no início) . Quanto a tal da catapulta, ele realmente existiu mas era um acessório para o Flyer 3, isso em 1908, e mesmo assim não era necessário para levantar voo, apenas facilitava o processo. Além disso tudo, os modelos Flyers foram a verdadeira base para toda a aviação enquanto que o 14-Bis foi logo abandonado por Dumont, que fez se não me engano mais cinco modelos até chegar ao Demoiselle. Mas aí Dumont já havia sido esquecido pelos franceses, que se renderam aos Wright. Isso magoou demais Dumont, que passou o resto da sua vida ressentido disso.

  8. @avcf
    ”E Sadat: deixe esse anti americanismo de lado. Foram os Wright, ponto.” Não sou anti americano, se fosse não teria comprado o Metroid Prime que é americano oras… rsrsr Brincadeiras à parte essa história como foi bem exposta pelo Thales aparentemente não possui um único ”criador” ou ”o” primeiro, é realmente cheio de ”pontos de vista” e ”relativismos” o caso, o que torna quase impossível eleger ”o” criador.

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